sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Casa Arrumada



Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Casa arrumada é assim:

Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida...

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas,
que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto...

Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.


Arrume a sua casa todos os dias...

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...

E reconhecer nela o seu lugar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Diretamente do blog: Gente que existe

1 de dezembro de 2010


DA IMPORTÂNCIA DAS ESCOVAS DE DENTE

A gente já tinha terminado, mas as coisas que ela disse não saíram da minha cabeça. Ela era especialista nisso: tirar o corpo fora na hora que a coisa dava errado. Nunca via a parte dela nos erros. Não via ou convenientemente fingia não ver, que é o que eu acho mais provável, afinal estamos falando de uma mulher e mulher sempre vê tudo. Até o que não aconteceu.
Mas ela não era direta, não. O discurso dela era cheio de curvas. Dava voltas e mais voltas, passeava no tempo, pra trás e pra frente, relembrava uns fatos, inventava outros, saltitava no absurdo, mas no final deixava só uma mensagem subliminar: “a culpa é toda sua, Fabrício”. Fabrício, claro, sou eu. Este homem pisoteado que vos fala.
- Você nunca quis que eu morasse com você, Fabrício! Nunca!
- Como não, Amanda? Já te falei mil vezes pra vir pra cá. E quando você disse que tinha nojo do meu sofá e que minha casa era um antro que fazia você ficar imaginando “todas as mulheres” que eu teoricamente trouxe aqui... Veja bem, Amanda: te-o-ri-ca-men-te!
- Você é mesmo um canalha, Fabrício!
- Você não me deixa falar, tá vendo? Tô aqui tentando te lembrar que só pra te agradar e fazer você se sentir melhor na minha casa, aliás, na nossa casa...
- Tá vendo? Olha aí o ato falho!
- Que ato falho o quê, Amanda! Eu disse a NOSSA casa, e você ouviu muito bem! Nossa casa sim, que eu pintei todinha de amarelo-quindim só pra você se sentir melhor. E ainda troquei meu sofá de couro de estimação por um novo daquele tecido chechênia que você gostava.
- Chenille, Fabrício. Chenille.
- Agora você reconhece, né? O tanto que eu fiz por você... Olha só como você é!
- Fez porcaria nenhuma, Fabrício. Tem anos que eu venho aqui e você sequer se deu ao trabalho de comprar pra mim uma escova de dente e colocar lá, no copo, do lado da sua.
- Escova de dente, Amanda? Quer dizer que você quer ir embora por causa de uma mísera escova de dente?
- Você não entende nada mesmo, Fabrício. Não é a escova de dente, mas o que ela representa. É uma coisa simbólica, meu filho. Tem a ver é com o gesto...
- Gesto?
- Só pra você ter uma ideia, outro dia a Bernadete me contou que chegou no apartamento do Duílio e ele tinha deixado pra ela no banheiro, do lado da escova dele, uma escova de dente rosa embrulhada com laço de fita e tudo...
- Meu amor, você vai cair numa dessas? Aí tem coisa! Pelo amor de Deus, aquele ali é um picareta! E olha que eu falo com conhecimento de causa porque o Duílio é meu melhor amigo. Crescemos juntos!
- E desde quando você cresceu, Fabrício? Que novidade é essa agora, meu filho? Vê se pelo menos aproveita que eu tô indo embora e toma jeito. Cresça e apareça porque pra mim já deu.
- Mas meu amor, por causa de uma escova?
- A escova é o símbolo, Fabrício. A escova é só o resumo da ópera...
E foi embora.
Durante muito tempo tive ódio. Se eu a encontrasse na rua, talvez tivesse vontade de agredir. Ficava imaginando encontros fictícios em que eu a maltratava. Minha mágoa se transformou em ódio, e o ódio em um dado momento, virou revanchismo. Eu fiz de um tudo por essa mulher. A tinta amarelo-quindim na parede, o sofá de tecido chechênia, tudo pra tentar resolver uma neura que era toda dela, aquela mania de ficar fazendo uma associação doentia do meu apartamento com uma vida de solteiro que na cabeça dela eu tenho certeza que era muito mais promíscua do que realmente foi, mesmo se eu considerar aquela fase mais permissiva com as duas garçonetes do centro e os potes de sorvete de flocos. Eu realmente queria que ela se sentisse mais à vontade na minha casa. Ou melhor, na nossa casa...
Mas o fato é que um tempo depois tudo passou e ela também: passou num concurso e foi morar no interior. Essa mudança foi boa. Um afastamento forçado que impediu que eu empreendesse aqueles maltratos públicos imaginários e que acabou resultando no fim de todas as inquietações. Chegou um dia em que acabou tudo: a mágoa, o ódio e até a aflição daquelas paredes amarelo-quindim me encarando todo dia. Quase tudo: ficou só uma pontinha de saudade e uma impressão de que talvez eu não tivesse tentado o tanto que deveria. Uma sensação de que deveria ter insistido mais.
Aconteceu que eu fui ser padrinho de casamento no interior, exatamente na cidade dela. A vontade de revê-la foi mais forte que a razão. Analisando friamente, eu sabia que não era boa ideia. Mas análise fria é uma coisa que eu só faço pra poder descartar. Pra depois que tudo der errado, como eu previ, poder ter aquela sensação vitoriosa de onisciência. Então liguei. Ela me atendeu muito receptiva, carinhosa, com aquele timbre de voz dela que eu passei tempos depois procurando outro igual e nunca encontrei. Eu reconheci ali a Amanda da fase boa, então disse logo que estava na cidade e que queria revê-la. Marcamos no apartamento dela. Era um corredor escuro, tinha daqueles sensores de presença pra acender a luz que nunca funciona. Quando Amanda abriu a porta me pegou fazendo uma coreografia deplorável, batendo asas numa tentativa ridícula de atingir algum sensor e acender a luz. A coreografia do avestruz serviu para quebrar o gelo. Rimos juntos e ela me chamou pra entrar. Mostrou-me a casa, ainda com poucos móveis: uma cama de casal no quarto, uma de solteiro na sala, servindo de sofá e uma mesinha baixa com uma televisão por cima. Era basicamente isso.
Em questão de segundos, exibíamos no sofá o encaixe perfeito, desses que só são possíveis depois de anos de entrosamento. Você deve estar aí imaginando uma cena de sexo selvagem que inclui suor e posições assustadoramente flexíveis, mas não é nada disso. Ela estava sentada e eu acabei deitando a cabeça em seu colo, devagar, receoso de uma possível restrição da parte dela, que não houve. Aquela posição me proporcionava um conforto esquecido, quase uterino. Que ardam nos quintos dos infernos as malditas paredes amarelo-quindim carregadas de frustração: minha verdadeira casa era aquele colo. E nele passei horas, conversando sobre tudo. Assunto nunca nos faltou, ainda mais depois de tanto tempo sem conversa. É que há nos casais inspirados esse misterioso estado de graça que faz parecerem interessantíssimos até os assuntos mais desinteressantes.
Mas era muita informação, muitas sensações estranhas, velhas e novas, ao mesmo tempo. Com muito pesar tive que momentaneamente abrir mão daquele colo bom. Precisava raciocinar um pouco e por um instante me tranquei sozinho no banheiro. Várias perguntas passeavam na minha cabeça. Será que a gente ainda tem uma chance? Será que daria certo se eu largasse tudo e me mudasse pra casa dela? Será que uma mulher perfeita como ela está solteira depois de tanto tempo morando aqui?
Resolvi lavar o rosto, voltei-me para a pia e tive a resposta impiedosa, imediata como um soco na barriga. Bem ao lado da torneira, sobre a bancada da pia, havia um copo. Nele, duas escovas de dente. Duas escovas de dente. Duas escovas de dente...
Se fosse um filme, na certa nessa hora um diretor menos inventivo usaria do manjado artifício da câmera em primeira pessoa girando em parafuso dentro do banheiro para evidenciar a angústia desesperada do protagonista. Só que isso não é um filme. Isso é a minha vida.
Escrito por : Frederico Bernis

quinta-feira, 14 de abril de 2011

tão abandonado isso aqui....

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Retomando uma das primeiras postagens deste blog, pensando bem eu não tô tão mal assim ....
Em 15/09/09 eu queria:

-ter uma casa; ( já tenho, ainda não é a dos nossos sonhos, mas já está mto perto...)

- ter um cachorro; ( já tenho, aliás tenho mais q um cachorro , tenho um dog filho... um amor pra vida inteira... a minha, claro , pq a dele, vai ser eterna )


- plantar flores; ( já plantei, morreu, plantei de novo, mudei de planta, plantei, morreu de novo... agora tô deixando pra ver como é q fica ... )

- ter uma horta; ( já tive, na verdade uma "mini horta jardineira "... plantei, morreu, plantei de novo, tentei outras hortaliças, plantei, morreu de novo... desisti! descobri q amo hortaliças desidratadas)

-lavar o carro nas manhãs de domingo e brincar com a mangueira d'água; ( lálálá  ... isso não é tão prazeiroso qto eu imaginava, faço isso às vzs, mas já perdi a graça)

- poder pegar uma "corzinha" no quintal de casa; (poder até posso mas falta tempo agora... mudei de desculpa)

- ter espaço suficiente para aquela interminável coleção de coissa inúteis que eu não consigo jogar fora; ( tenho espaço mas não tenho móveis adequados e ainda encontro muito resistência qdo o assunto é jogar coisas fora - talvez noutra vida....)


- secar as roupas ao sol; (adoooooooro,  é um destes pequenos prazeres que fazem diferença na vida da gente)

- ficar livre do barulho da portaria; (uhuuuu isso tbém foi bom!)

- ficar definitivamente livre dos vizinhos do andar de cima (ganhei vizinhos "laterais")

- não ter ninguém conversando embaixo da sua janela; ( piorou, tenho um vizinho que fuma na área dele como se estivesse dentro da minha casa)

- não dividir parede com nenhum vizinho, nem ser obrigada a ouvir os barulhos alheios ( sem alterações )


- ter mais espaço pra receber as pessoas ; ( ahhha ponto pra casa nova de novo)

- ter espaço para um churrasquinho no fds; ( espaço para um churrasquinho no fds; eu tenho mas a disposição tá currrrrta )

Vejamos: 60% de aproveitamento ..... hummmm tá bom não tá ?!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011



Alma gêmea de minha alma
Flor de luz de minha vida
Sublime estrela caída
Das belezas da amplidão .
 
Quando eu errava no mundo
Triste e só, no meu caminho ,
Chegaste, devagarinho ,
E encheste-me o coração.

Vinhas na benção das flores
Da divina claridade ,
Tecer-me a felicidade
Em sorrisos de esplendor !

És meu tesouro infinito .
Juro-te eterna aliança
Porque sou tua esperança ,
Como és todo meu amor !

Alma gêmea de minha alma
Se eu te perder algum dia...
Serei tua escura agonia ,
Da saudade nos seus véus...

Se um dia me abandonares
Luz terna dos meus amores,
Hei de esperar-te , entre as flores
Da claridade dos céus .


(Do livro "Há 2000 anos", cap. IV)











quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Conceitos

Solidão é uma ilha com saudade de barco. Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer "eu deixo" é pouco. Pouco é menos da metade. Muito é quando os dedos da mão não são suficientes. Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça. Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego. Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que ainda não aconteceu sair de seu pensamento. Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa. Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára. Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido. Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista. Renúncia é um não que não queria ser ele. Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe. Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora. Orgulho é uma guarita entre você e o da frente. Ansiedade é quando sempre faltam 5 minutos para o que quer que seja. Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada em especial. Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é Fevereiro... Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros. Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho. Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.Perdão é quando o Natal acontece em outra ápoca do ano.Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.Desatino é um desataque de prudência.Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.Emoção é um tango que ainda não foi feito.Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.Desejo é uma boca com sede.Paixão é quando apesar da palavra "perigo" o desejo chega e entra.Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado.Não. Amor é um exagero... também não. É um "desadoro"... Uma batelada? Um exame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor não sei explicar...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pra começar o ANO !


Para ser feliz, próspero,vencedor,receber amores e dádivas,bênçãos e distinções,podes formular votos,tecer esperanças,alinhavar projetos,enumerar decisões,vestir cores certas,brindar à sorte.
Porém,se no coração,o homem velho prossegue,se o ontem ainda te governa,se melhoras apenas te farão, mais forte no que te é dispensável,então prosseguirás,ano após ano,imerso no mesmo tempo,estacionário,
por livre e espontânea vontade,de um eterno ano velho,passado.

André Luiz